Como Tabata Amaral foi de “tesouro” de Ciro Gomes à suspensão no PDT

A executiva nacional do PDT decidiu instaurar processo disciplinar contra a deputada Tabata Amaral (SP) e mais sete deputados que votaram a favor da reforma da Previdência em primeiro turno na Câmara na semana passada, contrariando a orientação do partido. Os oito parlamentares também estão com suas representações partidárias suspensas até que o processo seja concluído, o que significa que não poderão falar em nome do PDT e devem sair das comissões formadas na Câmara dos Deputados. O processo será conduzido pela comissão de ética do partido e todos terão espaço para defesa e poderão expor todas as variáveis que os levaram a contrariar a decisão do diretório nacional. O processo todo pode durar até 60 dias.

A decisão do PDT, comunicada pelo presidente Carlos Lupi e formalizada sem a presença do vice-presidente da sigla, Ciro Gomes, abala fortemente a relação de Tabata com o partido. Até então, ela era a menina dos olhos da sigla, chamada de “tesouro” pelo ex-candidato à presidência, e vista como uma das principais apostas de renovação do partido fundado por Leonel Brizola. Mas nos últimos dias, Ciro afirmou que ela faz “dupla militância”, em referência aos movimentos Renova BR e Acredito dos quais a deputada faz parte, e que, assim como os demais parlamentares, ela “não tem mais lugar no PDT”. O ex-governador do Ceará, que participava de uma agenda na Assembleia Legislativa da Bahia enquanto o partido se reunia em Brasília, mudou de partido seis vezes até parar no PDT. Procurada, a assessoria de imprensa de Ciro não respondeu à reportagem, e a de Tabata afirmou que ela não comentará o caso, diz o MSN.

Além da deputada paulista, Alex Santana (BA), Flávio Nogueira (PI), Gil Cutrim (MA), Jesus Sérgio (AC), Marlon Santos (RS), Silvia Cristina (RO) e o subtenente Gonzaga (MG) foram suspensos temporariamente. Como o processo pode durar até dois meses, existe a possibilidade de os parlamentares voltem atrás e votem contra a reforma da Previdência em agosto, quando está previsto o segundo turno de votação na Câmara. No rol de possibilidades, a sigla pode decidir por manter os deputados suspensos por mais tempo ou até mesmo dar uma advertência mais branda. Se de fato forem expulsos, eles não perderão seus mandatos e poderão se filiar a outra legenda.

No total, a bancada do PDT na Câmara é formada por 27 deputados. Atrás da sigla, em números, está o Solidariedade, com 14 parlamentares. Ou seja, na hipótese da expulsão, o PDT permaneceria na mesma posição, com 19 eleitos, voltando ao tamanho que era na legislatura anterior.

No encontro desta quarta, a legenda também deliberou não aceitar nas próximas eleições candidaturas que tenham como patrocínio grupos particulares. Essa é outra decisão que atinge diretamente Tabata Amaral, que chegou ao partido por meio do Renova BR e do Acredito. Ao G1, Lupi classificou os movimentos de “grupos clandestinos”. “O partido não dará legenda nem a vereador, nem a deputado, nem a nenhum filiado do partido que tenha financiamento clandestino, financiamento patrocinado por organizações pessoais, privadas, particulares, de gente muito poderosa, que se utiliza de grupos para financiar e ter o voto de parlamentares dentro da sigla do PDT”, afirmou.

Na véspera da reunião, Lupi usou sua conta no Twitter para afirmar que “votar a favor da reforma da Previdência é mais grave ainda que ter apoiado o golpe contra Dilma. Imoralidade sem tamanho”. Em 2016, o PDT puniu seis deputados que contrariaram a orientação da legenda e votaram a favor do impeachment. Apenas um – Giovani Cherini (RS) – foi expulso. Os demais ficaram suspensos por 40 dias e dois, que ocupavam posição de direção em diretórios municipais, foram afastados do cargo da executiva. Na época, a cúpula partidária alegou que Cherini foi expulso por ter feito campanha a favor do afastamento de Dilma Rousseff e por ter atuado nos bastidores para tentar convencer colegas a descumprirem a orientação partidária.

Nascida na periferia de São Paulo, Tabata Amaral, 25, traz em seu currículo uma temporada de estudos em Harvard e a educação como principal bandeira. Ganhou os holofotes quando, no final do março, jogou o então ministro da Educação Ricardo Vélez contra as cordas ao questionar suas propostas frente à pasta. O episódio foi constrangedor para Vélez, demitido por Bolsonaro em seguida.

Além do PDT, o PSB também abriu processo contra 11 deputados que votaram a favor da reforma da Previdência.

18/07/2019

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